O que precisamos aprender com o sucesso de Nova Iorque contra o crime?

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Em 1990, Nova Iorque registrou 2.245 homicídios. Usando a métrica internacional para a violência, isso equivale a 30,7 homicídios por 100 mil habitantes. Para te dar perspectiva, a taxa do Brasil em 2024 foi de 20,8; a do Rio de Janeiro, Estado de onde escrevo, foi de 22,1.

Trinta mortes violentas por 100 mil pessoas, numa cidade que, no imaginário popular, sempre foi sinônimo de cosmopolitismo e oportunidade, além de sede da ONU, era uma enormidade. Crianças atingidas por balas perdidas, acertos de conta entre traficantes de crack, assaltos que terminavam em morte por causa de um relógio ou um par de tênis. Na prática, uma das cidades mais perigosas do mundo desenvolvido.

Para quem anda hoje tranquilamente pelas ruas do Brooklyn, um bairro de Nova Iorque que era sinônimo de violência, isso parece filme de ficção científica. Mas a Nova Iorque no fim dos anos 1980 e início dos 1990 era o cenário que alimentou uma geração inteira de filmes, séries e músicas sobre violência e desordem urbana — de Taxi Driver (que é de 1976, mas retrata bem a atmosfera) ao crack e gangsta rap dos anos 1990 — que geraram inclusive a sua contribuição de [homicídios entre artistas famosos](List of murdered hip-hop musicians – Wikipedia. Até filmes de comédia, como Esqueceram de Mim 2, tinham cenas que mostravam como ninguém andava no Central Park de noite.

O metrô era infestado de pichações e de crime. Bairros inteiros — o South Bronx, Brownsville, East New York — eram zonas onde a polícia, na melhor das hipóteses, tentava conter o caos.

Nova Iorque, a capital do mundo, a cidade que nunca dorme, era o sinônimo da decadência e da criminalidade urbanas.

Corta para 2017 e a taxa de homicídios de Nova Iorque estava em 3,4 por 100 mil habitantes. Em 2018, 3,5. De 30,7 para 3,4 — uma queda de quase 90%. A cidade voltou a patamares que não via desde os anos 1950, quando tinha metade da população flutuante que tem hoje. E não, isso não é um erro de digitação.

O que aconteceu?

Bem, se você perguntar à maioria das pessoas que acompanham o tema — e especialmente se perguntar a policiais — a resposta vai incluir uma palavra: Compstat. Abreviação de Computer Statistics (ou Comparative Statistics, dependendo de quem conta a história), o Compstat é um sistema de gestão policial criado em 1994 pelo comissário William Bratton, chefe da Polícia de Nova Iorque, e seu assessor Jack Maple, na gestão do prefeito Rudy Giuliani. A ideia era — para a época — quase revolucionária: usar dados de criminalidade atualizados diariamente para orientar a ação policial. Não mais esperar o relatório trimestral para saber onde o crime estava concentrado; agora, os comandantes de cada distrito policial eram convocados a reuniões regulares — duas vezes por semana — onde tinham que explicar o que estava acontecendo na sua área e o que estavam fazendo a respeito. Com dados. Em tempo real. Sob pressão.

A estória é boa. Na verdade, é ótima — boa o suficiente para ter se tornado lenda. Maple, o sujeito que rabiscou os quatro princípios do sistema num guardanapo no restaurante Elaine’s (accurate, timely intelligence; rapid deployment; effective tactics; relentless follow-up and assessment), morreu jovem, de câncer, em 2001, e virou uma espécie de herói póstumo do policiamento orientado por dados. A sala do Compstat no quartel-general da NYPD leva o seu nome.

Mas — e aqui começa o que realmente me interessa neste artigo — a pergunta que precisamos fazer não é se o Compstat é uma boa ideia. Isso é óbvio. Certamente é melhor gerir uma organização policial com dados atualizados do que sem eles. A pergunta é outra: quanto do declínio da violência em Nova Iorque o Compstat realmente explica?

Porque, curiosamente, quando olhamos os dados com mais cuidado — como fez o sociólogo David Greenberg, da New York University, numa análise publicada em 2013 — a queda na criminalidade violenta e patrimonial em Nova Iorque já estava em curso antes da implementação do Compstat. O sistema foi adotado em 1994; a queda começou por volta de 1991. Além disso, a redução do crime em Nova Iorque foi maior que a média nacional, é verdade — a violência caiu 56% na cidade contra 28% no país como um todo —, mas também é verdade que o nível inicial de violência em Nova Iorque já era maior do que o do resto do país. O país inteiro estava ficando menos violento. Não só Nova Iorque. Não só as cidades que adotaram o Compstat.

O que isso sugere é que o Compstat é uma ferramenta útil para a organização da ação policial. Mas, no esquema geral da violência urbana, seu efeito é modesto. E o mais relevante para nós, no Brasil: os municípios têm à disposição ferramentas muito mais poderosas para contribuir com a segurança pública do que a mera emulação de técnicas policiais. Ferramentas que quase nenhum prefeito utiliza, ou , ao menos, não utiliza como política de segurança pública.

Porque a visão dominante sobre segurança pública é, ainda, fundamentalmente equivocada.

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Estamos agora em 2025. Para Nova Iorque, a época dos metrôs pichados e das mortes por disputa de crack no Central Park já é estória que avós contam para netos. Mas aquela descrição que dei acima, de que zonas inteiras da cidade eram lugares “onde a polícia, na melhor das hipóteses, tentava conter o caos”, soa lamentavelmente familiar para muito/as de nós que vivemos em grandes cidades no Brasil.

O tema da segurança pública é um dos que mais preocupam todo/as o/as brasileiro/as e está fadado a ser, talvez, o tema central das campanhas eleitorais para Presidente e Governadore/as este ano.

Percebendo isso, pré-candidato/as a esses cargos começaram logo cedo a se mover para mostrar que estão trabalhando a pleno vapor para, finalmente, resolver o problema da segurança pública nos seus locais.

No meu Estado do Rio de Janeiro, tanto o atual Governador, Cláudio Castro, que busca fazer seu sucessor e se eleger senador, quanto o Prefeito da Capital, Eduardo Paes, pré-candidato e um dos favoritos ao Governo do Estado, já produzem conteúdo para disputar quem está mais avançado no caminho dessa solução.

Castro já anunciou que apoiará o Deputado Estadual Douglas Ruas para sua sucessão. E Ruas, por sua vez, já anunciou que contará com o atual Secretário de Estado de Polícia Civil, Felipe Curi, para chefiar seu programa de governo no tema.

Paes, por sua vez, lançou recentemente vídeo nas redes sociais, comemorando o término da implantação do Compstat como ferramenta básica de apoio à atuação da Guarda Municipal na repressão a roubos e furtos na cidade do Rio de Janeiro. Segundo ele, “o modelo Compstat alcançou resultados sem precedentes, reduzindo drasticamente os delitos urbanos.”

Soa familiar?


Anunciar um policial como referência na política de segurança e anunciar um modelo de gestão de policiamento orientado a dados podem parecer refletir ideias muito diferentes sobre segurança pública. Porém, na verdade, as duas partem da mesma assunção: política de segurança pública e diminuição da criminalidade urbana — especialmente a criminalidade violenta — começa com polícia e o policiamento.

Isso pode parece óbvio. Mas a evidência que se acumula mostra que isso é falso.

Antes de jogar uns estudos em cima de você para mostrar isso, vamos começar pensando também no nível mais intuitivo. Se eu te perguntar agora qual é a grande cidade mais segura do mundo, você provavelmente não vai saber me responder. Tudo bem, eu também não sabia. Tive de procurar. Fora que diferentes métricas podem gerar resultados diferentes.

Vamos fazer, então, uma pergunta diferente: em quais países ou regiões você supõe que essas cidades estão? Aqui, provavelmente você chegou mais perto. Você deve ter pensado algo como Japão ou Europa. E você terá acertado, na maior parte. De acordo com um ranking internacional, a cidade com menor taxa de mortes violentas no mundo em 2023 foi Singapura, seguida de Tóquio, Hong Kong, Berlim e Sydney. Na lista das 10 cidades com menores taxas também estão Londres (6ª), Amsterdã (8ª) e Paris (9ª).

São cidades diferentes, mas elas têm algo em comum: nenhuma delas é conhecida por seu sistema revolucionário de policiamento. Ou por seu Sistema de Justiça Criminal particularmente punitivo: se compararmos as taxas de violência dessas cidades, com a população prisional per capita dos países onde essas cidades estão, veremos que a correlação é quase inversa. Singapura é o número 93 no ranking prisional (que tem cerca de 220 países). Japão é o número 216: está no top 10 de menor população prisional. Hong Kong é 119; Alemanha é 175; Austrália, 97; Inglaterra, 120. Posso parar por aqui, porque você entendeu a lógica. Países com cidades mais seguras tendem a estar entre os que menos prendem pessoas.

Mesmo que fiquemos apenas nos EUA, onde o Compstat nasceu, a atuação das polícias e o próprio sistema tiveram, como eu disse acima, apenas um efeito marginal, na melhor das hipóteses, na redução da criminalidade massiva observada no país inteiro, a partir do fim do séc. XX.

Exatamente porque a redução foi em todo o país, explicações em uma cidade não podem responder pela maior parte do efeito. Outras explicações, mais gerais, existem e são as que mais correspondem aos melhores dados de que dispomos.

Duas delas têm efeitos tão grandes quanto contraintuitivos. A primeira é a que associa quedas sustentadas de violência nos EUA à proibição do uso de chumbo como aditivo da gasolina, entre as décadas de 1970 e 1990. A segunda é a que associa as mesmas quedas à legalização forçada do aborto voluntário em todo aquele país, por decisão da Suprema Corte de lá, em 1973. Essa segunda explicação até gozou de um pouco mais de fama, porque foi explicada em um capítulo do bestseller “Freakonomics”, originalmente publicado em 2005.

Eu reconheço que parece que eu inventei isso. Juro que não. E também juro que os dados que fundamentam essas conclusões são robustos. Mas não precisamos ficar debatendo sobre isso aqui. Detalhar o mecanismo que explica por que a diminuição da exposição ao chumbo na infância e a facilitação do aborto voluntário levam a reduções drásticas de violência vai ser assunto para outro texto, no futuro. Até porque esses dois fenômenos não se ligam à atividade de governos municipais ou mesmo estaduais.

O mecanismo que me interessa mais nesse momento, e que também tem efeitos grandes e decisivos sobre violência urbana, é outro e se conecta à própria organização do espaço urbano.


Jens Ludwig é um professor de economia da prestigiosa Universidade de Chicago. Em 2025, ele escreveu um livro que resumo o que décadas de pesquisa no seu instituto dentro daquela universidade, o University of Chicago Crime Lab, lhe ensinaram. Aliás, não só suas pesquisas. Foram particularmente instrutivas às vezes em que ele mesmo se envolveu em episódios de violência urbana com seus concidadãos, nos quais, se não houvesse a intervenção de terceiros, ou se alguém estivesse armado, ele ou outros poderiam ter sido autores ou vítimas de homicídio.

O livro é fantástico. Quem se interessa pelo tema e lê Inglês deve colocá-lo na sua lista de prioridades. Há também uma interessante resenha do livro, escrito pelo escritor bestseller Malcolm Gladwell e publicado na revista New Yorker em meados de 2025. A hipótese central de Ludwig deriva de um misto de teorias econômicas e psicológicas conhecido como economia comportamental e que já gerou ao menos três prêmios Nobel de Economia ao longo das últimas décadas.

Pode soltar a respiração. Não vou nem tentar explicar os intricados detalhes dessa hipótese. Talvez em outro texto — já estou devendo pelo menos dois.

Ao invés disso, vou explicar uma consequência dessa hipótese e vou pedir que você confie em mim que a mesma evidência que torna a hipótese de Ludwig correta também serve para fundamentar essa consequência: a de que a organização, o cuidado e o bom planejamento do espaço urbano levam a menos violência nas cidades.

Na verdade, a ideia é simples: atos de violência, na sua maior parte, são mais consequências de tensões momentâneas e sentimentos raivosos passageiros do que efeitos da índole ou do cálculo premeditado das pessoas. Se esses momentos — chamados por Ludwig de janelas de violência — forem interrompidos, o ato de violência simplesmente deixa de existir. Pode ser uma pessoa que iria atacar outra no trânsito se não fosse pela intervenção de um terceiro que acalma os ânimos; alguém que se tornaria violento se tivesse bebido, mas não encontra bebida para comprar; ou mesmo uma pessoa que praticaria um roubo contra um transeunte, mas é inibida por câmeras e luzes no bairro.

Em todos esses casos e outros similares, equipamentos urbanos bem planejados são o diferencial entre uma violência ou uma não-violência. Não é por acaso que, em qualquer grande cidade, a violência é desigualmente distribuída: bairros mais ricos são também os bairros mais iluminados, com mais gente na rua e com comércio e serviços mais vibrantes. Bairros mais pobres, por outro lado, têm mais terrenos baldios, pior iluminação e mais áreas degradadas.

Outras atuações dos governos locais também se associam à menor violência. Uma saúde pública melhor gera menos insegurança e ansiedade nas pessoas, que, por sua vez, leva a menos impulsos violentos. Acontece o mesmo com (in)segurança alimentar. Adolescentes e jovens que têm menos supervisão e apoio por adultos mais velhos, seja na família, na escola ou na comunidade, também tem maior probabilidade de praticar atos violentos.

Em todos esses casos, a evidência é a mesma: maior vulnerabilidade social se associa com maior propensão das pessoas violentas a praticar — e sofrer — violência. E essa vulnerabilidade é composta pelas circunstâncias de vida como um todo que cercam as pessoas: incluindo o espaço onde vivem e por onde circulam.


É hora de voltar a Nova Iorque. Na década de 1990, além do Compstat, a Prefeitura também adotou outra política famosa, que recebeu o nome dado pelos seus teóricos, George Kelling L. e James Q. Wilson: a política das “janelas quebradas” — do Inglês Broken Windows.

Há muito equívoco ainda na compreensão sobre essa política, mesmo por especialistas em segurança pública. Mas uma das suas proposições básicas é compreendida por todos: promover um ambiente seguro depende de sinalizar que o ambiente está cuidado. Onde uma janela está quebrada e ninguém conserta, daqui a pouco outra será quebrada. Depois, uma porta, o carro em frente do prédio, o poste do lado do carro, o ponto de ônibus embaixo do poste. Essa percepção de abandono gera locais onde os impulsos violentos das pessoas, contra coisas ou outras pessoas, não têm freios.

O resultado é um círculo vicioso: o abandono fomenta a violência que fomenta o abandono.

A partir do fim dos anos 1990, os metrôs de Nova Iorque não eram mais pichados. As ruas da maior parte da cidade foram reiluminadas. Prédios caindo as pedaços, muitos deles de propriedade de órgãos públicos, foram recuperados. E as pessoas, as lojas, os restaurantes foram voltando a ocupar esses lugares.

Nova Iorque é, de fato, um grande caso de sucesso na luta contra a violência urbana. Mas muito menos por causa da polícia ou do Compstat e muito mais porque o Poder Público local fez o que era seu dever: cuidou da cidade.

Algo que os nossos candidatos poderiam ir a Nova Iorque para aprender.

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